JOAQUÍN RÁBAGO
da Efe, em Londres
Os jovens aspirantes a se tornarem a nova descoberta do publicitário e colecionador Charles Saatchi podem não saber desenhar, mas sonham com o estrelato que só esse mecenas britânico de origem iraquiana pode lhes proporcionar.
A BBC acaba de estrear um novo reality show batizado de “School of Saatchi” (a escola de saatchi, em tradução livre), no qual um grupo de jovens –alguns formados em escolas de arte e desenho; outros, autodidatas — tentam sair do anonimato com a ajuda do homem que lançou as carreiras internacionais de Damien Hirst e Tracey Emin, entre outros.
Uma das provas do primeiro programa, transmitido na última segunda-feira (23), consistiu em desenhar um modelo nu, como se fazia antigamente nas escolas de Belas Artes, e o resultado na maioria dos casos foram simples rabiscos cuja falta de capricho foi explicada pelos participantes com as mais variadas desculpas.
Não faz diferença; o importante é saber explicar por que um apito pendurado por uma barra é arte, assim como, por exemplo, o famoso mictório do pioneiro da arte conceitual, Marcel Duchamp.
A fórmula utilizada pelos criadores de “School of Saatchi” é similar à de outros programas de televisão de busca de “talentos”, como “O Aprendiz”, só que o colecionador não se deixa aparecer, usando uma colaboradora como porta-voz.
Enquanto isso, na presença das câmeras, um grupo de especialistas escolhido por Saatchi –Tracey Emin, o crítico Matt Collins, a diretora da galeria do centro Barbican, Kate Bush, e o colecionador e multimilionário Frank Cohen –avalia os diferentes trabalhos.
No primeiro programa, os 12 participantes inicialmente selecionados ficaram reduzidos à metade. O vencedor fará parte de uma exposição coletiva de Saatchi na galeria Ermitage de São Petersburgo (Rússia) e terá um estudo que o mecenas porá a sua disposição em Londres.
Neste episódio inicial, os telespectadores foram lembrados que, graças a Saatchi, alguns artistas alcançaram “riqueza e fama extraordinárias”, experiência que agora será repetida com outros.
“Saatchi é uma espécie de criador de reis e seu mecenato pode lançar a carreira de um artista a um estrelato supersônico”, explicou Collins em um tom de exagerada adulação.
Um dos participantes do programa, de origem asiática, se apresentou à disputa acompanhado por seu pai, que não conseguiu esconder seu orgulho ao saber que sua cria tinha superado a primeira prova.
Outro dos jovens, que não teve a mesma própria sorte, exibiu uma instalação formada por um círculo de cadeiras caídas. Quando os juízes o perguntaram por que achava que isso era arte, se limitou a balbuciar: “Meu trabalho é uma tentativa de, bem, filtrar as imagens e a experiência por este processo de experiência humana”.
Não é de se estranhar que, diante de tal ininteligível verborragia, até mesmo Tracey Emin, a artista que transformou sua própria cama por fazer em uma obra de arte, perdesse a paciência e dissesse nunca ter ouvido tamanha asneira em toda sua vida.
E o que o próprio Saatchi vai conseguir com tudo isso? Alguns dizem que se trata de recuperar a influência que parece ter perdido na última década, durante a qual aquele que já foi a figura mais poderosa da arte contemporânea britânica caiu do 14º lugar para o 72º na lista dos personagens mais influentes da arte mundial elaborada anualmente pela revista “ArtReview”.
Fonte: Folha Online
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